segunda-feira, 22 de setembro de 2014

LAVELLE E A CONTEMPLAÇÃO DE NARCISO

Ednaldo de Oliveira Santos


1.1.  A CONSEQUÊNCIA DE QUERER PERMANECER SENDO SOMBRA DE UMA SOMBRA
Existem diferentes e variadas versões sobre a história de Narciso, todos vindos do legado deixado pela mitologia grega. Em todas as versões, ou na maioria delas, o núcleo é sempre o mesmo: Narciso é o filho do deus-rio, Cêfiso e uma ninfa. É pragmático observar que o que está presente em todas as versões deste conto diz respeito ás palavras proferidas pelo vidente Tirésias sobre o destino da criança: “O menino conheceria a velhice se não visse a si mesmo”[1]. Não é este um dos quere do homem contemporâneo? Todo homem deseja ardentemente a eternidade, a perduração do seu nome no tempo, nas coisas e nos outros. Com este querer absoluto o homem se coloca diante de todas as possíveis consequências. O que realmente importa é ser eterno, é ser lembrado.
O risco de viver segundo uma imagem revelou em Narciso a sede pela de si mesmo:

“O crime de Narciso é preferir, no final, sua imagem a si mesmo. A impossibilidade em que se encontra de unir-se a ela só pode produzir nele o desespero. Narciso ama um objeto que ele não pode possuir. Porém, assim que começou a se debruçar para vê-lo, era a morte que ele desejava. Unir-se à própria imagem e confundir-se com ela significa morrer. Era também seu duplo que buscava nas águas moventes a filha do Reno.”[2]

Em Narciso reside o perigo e a realidade. O perigo do homem se apaixonar por sua própria imagem, por aquilo que ele parece ser, aparenta aos outros, quer mostrar aos outros. É a capacidade do homem de se apaixonar por ele mesmo e ai se perder loucamente, ao ponto de não querer voltar mais. Permanecer consigo mesmo, bastar-se a si mesmo. Lavelle resalta: “No espelho das águas viu sua figura e por ela se apaixonou perdidamente. Junto a essas águas sombrias Narciso não cessa de perseguir sua amada figura.”[3]
Quando o homem se lança no culto à própria imagem ele transforma tudo o que está a sua volta em elementos que fundamentam o amor a si mesmo. Isso se transforma em paixão cega, a ponto de pensar não mais precisar de ninguém além de si mesmo. Aqui reside o grande perigo da modernidade, o perigo de pensar ser possível viver sozinho, de fundamentar a vida e as ações na solidez da consciência individual.  A modernidade conhece bem as consequências de uma vida fundamentada naquilo que é só barulho, que é só representação. O mito de Narciso apresenta o filho de um deus que cai nessa armadilha de perder-se no ego e na representação. Esses dois elementos foram colocados acima do filho de um deus.
Louis Lavelle cavou fundo este espaço do ser, no reino do vazio, do oco:

“Ora, a consciência que Narciso quer ter de si mesmo lhe tira a vontade de viver, isto é, de agir. Pois, para agir, ele deve parar de se ver e pensar em si; deve deixar de converter em uma fonte na qual se olha uma imagem cujas águas destinam a purificá-lo, a alimentá-lo e a fortalecê-lo. Em outras palavras: contemplar-se narcisicamente é um processo compulsivo, um guante interior que agarra e sufoca o eu, paralisando o movimento de ir além de si e transcender o circulo vicioso da autofruição.”[4]

É preciso agir. Narciso não consegue viver nem agir, pois a consciência que ele quer ter de si mesmo lhe tira todo o impulso para a vida. Um processo compulsivo que sufoca e paralisa o movimento de ir além, de querer mais, de transcendência. Não há como ir além fundamentando tudo em uma imagem. Preferir a imagem significa não querer aprofundar ou enraizar a vida. É querer sobreviver constantemente naquilo que pareço ser, naquilo que os outros dizem que sou. Este é o crime de Narciso: negar-se a ser objeto de desejo de alguém que não fosse ele mesmo. Mais ainda: sua beleza foi guardada para si mesmo.
Lavelle relata de modo incisivo:

“Narciso se espanta de ser um objeto para si mesmo e se satisfaz de ver-se como um estranho o veria, mas dando-se o prazer de abolir esse estranho nele. ser conhecido, ser amado por ele mesmo, nada lhe acrescenta ao seu puro poder de conhecer e de amar; é só na aparência que esse poder age.”[5]

É a solidão de viver constantemente naquilo que se acredita ser importante, louvável, favorável a uma boa imagem. Aqui se trata de um acordo geral, onde os homens como que inconscientes, arquitetam aquilo que é importante mostrar para se ter uma vida “aceitável” em sociedade.

“Pois os homens vivem de um comum acordo num mundo de aparência e de fingimento: é nele que resoam suas palavras, embora a verdade inteira esta diante deles e nela seu olhar mergulhe. A consciência dessa discordância pode mesmo lhes proporcionar um gozo cruel.”[6]

 A sensação de estarmos diante de uma grande sociedade de fingidores pode não a ser a melhor possível. Até que ponto eu também faço parte deste pacto da imagem? O homem contemporâneo por vezes é pressionado a escolhas decisivas de sua vida diante deste panorama da mentira e do fingimento. O clima de insegurança favorece a transformação do desejo de uma vida autêntica, no esforço de mostrar o que não são. É próprio da consciência humana tomar posse de si mesmo. Lavelle entende que a tomada de posse da consciência é tão importante quanto uma criação, quanto a criação de si mesmo, pois é nessa tomada de posse que se realiza o ser possível, como afirma: “Não posso ser outro diferente do que sou.”[7] Esta é uma tarefa difícil para o homem que fez opção de pensar a cerca de uma identidade fundamentada na liberdade de si. O preço que se paga pela sinceridade é muito alto. Qual o preço da sinceridade na sociedade atual?
Em Lavelle a sinceridade, antes de ser uma mostra daquilo que é constituinte na pessoa, é um processo, uma busca constante pelo eu consciente. No que se refere a esta busca, se trata de uma longa viagem ao fundo de nós mesmos. Uma misteriosa “cassada” ao redor daquilo que possivelmente pensávamos ser, até aquilo que descobriremos que realmente éramos e não sabíamos. Lavelle descreve:

“O próprio da sinceridade é obrigar-me a ser eu mesmo, isto é, tornar-me eu mesmo o que sou. Ela é uma busca da minha própria essência, que começa a se adulterar quando tomo do exterior os motivos que me fazem agir. Pois essa essência nunca é um objeto que contemplo, mas uma obra que realizo, o emprego de certos poderes que estão em mim e que murcham se deixo de exercê-los.”[8]

As consequências de uma vida fundamentada na imagem de si é viver segundo a sombra de uma sombra, segundo aquilo que a imagem que me dão faz daquilo que queria ser e não consigo. A sinceridade é, pois, uma entrada e saída em si mesmo, uma descoberta daquilo que sou e daquilo que quero ser. Por essa razão é que Lavelle trata da sinceridade como busca, caminho, e não como expressão daquilo que sou ou queira ser.

1.2.  O PERIGO DE PERMANECER NA SOMBRA DE SI MESMO

Prosseguindo na mesma linha do pensamento lavelliano da tentativa do homem em se esconder diante de algo ou alguém, é preciso lançar agora o pensamento sob a capacidade humana de viver, além da aparência imposta ou escolhida, segundo uma máscara. É possível chegar a um estágio tal em que não mais se perceba o uso da máscara? Em contrapartida, o que motiva o homem a pensar a cerca de sua identidade, daquilo que o constitui como pessoa, diferente das outras?
Bauman em sua obra intitulada Identidade (2005), defende que o desejo da identidade nasce do anseio pela segurança, estabilidade. Ressalta: “Em nossa época liquido-moderna, em que o individuo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, ‘estar fixo’ – ser ‘identificado’ de modo inflexível e sem alternativa – é algo cada vez mais malvisto.”[9] Estamos diante de um grande paradoxo. Aqueles que não se encaixam entre os que perambulam perdidos à procura de alguém que lhes dite o que fazer, são encaixados na lista dos retrógrados, atrasados e etc.
Fixemos nossa atenção no perigo contemporâneo de fundamentar as ações segundo o uso das máscaras. Não nos ateremos ao significado desta, pois a própria historia já cuidou de fazê-lo, mas nos debruçaremos nas consequências que esta escolha traz para a pessoa que a efetiva, assim como para todas as outras que estão ao seu redor. No esforço de adaptar-se a realidade o indivíduo corre o risco de esquecer-se de si e empregar as energias na tentativa desenfreada de manter inabalável a imagem criada. Sobre isso relata Gérard Artaud, psicoterapeuta reconhecido por sua especialização sobre o crescimento do adulto:           
“Coloco tanta energia na construção desta minha personagem que acabo sendo enganado por essa farsa que estou representando e convencendo-me de que sou aquilo que quero parecer. Minha personagem recrudesceu numa mascara enganadora. Meu status social acabou absorvendo minha imagem pessoal. Tomo-me por um outro e, se me acontece tomar consciência, disso encontro bastante dificuldade para reencontrar meu verdadeiro rosto.”[10]

Existe em si uma traição de si mesmo no ato do uso da máscara. É o assassinato da consciência e da identidade, acontecido consciente ou inconscientemente. Em cada processo de formação de identidade existe um ideal que precisa ser descoberto, analisado, pensado. É possível fazer uma espécie de retrato falado de si mesmo, ao ponto de pensar estar tratando de duas pessoas distintas, quando estou falando de mim mesmo. O ser humano corre o risco de se afastar tanto de si, que se descobre distante de tudo aquilo que pensou ou programou para sua existência.
Quando se reprime algo que está dentro de si mesmo, corre-se o risco de esconder tudo àquilo que deseja e precisa vir à tona. O autoconhecimento quando acolhido, pode ser a via pela qual esses elementos cheguem gradualmente ao consciente. É o que relata John Powell, psiquiatra, em sua obra fabulosa: “Arrancar máscaras! Abandonar papéis!” escrita juntamente com Loretta Brady, também psiquiatra renomada:

“A honestidade consigo mesmo é um hábito de autoconsciência que deve ser praticado diariamente. E esta autoconsciência é mais um processo do que um simples fato. Devemos habitualmente tentar tornar-nos cônscios da forma altamente pessoal e individual em que funcionamos para processar nossas sensações, percepções, emoções e motivos. Devemos examinar com mais cuidado a forma como chegamos a nossas decisões e por fim a nossas ações.”[11]

Reprimir aquilo que passa por dentro é um caminho de construção de um deserto interior capaz de afastar cada vez mais a pessoa de si mesma. Se eu constituir um deserto e nele me perder, sumir de mim mesmo e dos outros, como conseguirei ações éticas responsáveis? A consequência dessa falta de honestidade desemboca naquilo que Lavelle chamara do mesmo que tenho de mim mesmo. Quando se trata de fuga, em Lavelle, na verdade se trata do medo de si mesmo. O medo de não ser capaz de desenvolver as potencialidades que se tem.
Por vezes as pessoas até reconhecem as potencialidades que carregam consigo, até projetam inúmeras coisas a serem feitas com tais potencialidades, mas não são capazes de realizá-las por alimentarem dentro de si mesmo um o medo do fracasso, que no fundo, não passa do medo de si mesmos. É o medo de Narciso, o medo do mundo, a revolta de se ver na água. Relata Lavelle:

“Tudo o que posso imaginar de mais nobre e de mais belo no mundo, tudo o que traz para mim a marca do valor e que posso amar, é aquilo que é minha intimidade mais profunda, e, ao fugir sob pretexto de que sou incapaz ou indigno dela, é de mim mesmo que fujo. As coisas mais superficiais e mais baixas, que me atraem ou que me retêm, são apenas um divertimento que me distancia de mim, não propriamente porque não posso suportar o espetáculo do que sou, mas porque não tenho a coragem de exercer as forças de que disponho, nem de responder às exigências que encontro em mim.”[12]

Para que o conhecimento deste ser que existe em nós é preciso utilizar-se da introspecção. É como já comentado, um processo de construção infinito, que nunca acaba e não cessa de se fazer. Nunca se chega ao conhecimento total de si. Neste sentido, Freud teve sua contribuição importantíssima no desenvolvimento humano, no que diz respeito á psique humana e ao inconsciente. Sempre ao apresentar esse processo de construção da identidade como pressuposto ao conhecimento de si, Lavelle apresenta esse salto qualitativo do erro de Narciso em querer uma imagem a si mesmo, a seus primeiros passos para a ética.
O homem está constantemente neste processo de se fazer, se construir; é um caminho para toda vida. Lavelle descreve este processo como sendo o mais importante de toda a vida, se não o único:

“Ser é sempre mais que conhecer. Pois o conhecimento é um espetáculo que nos oferecemos. Assim não há nada mais desconhecido que o ser que somos; nunca conseguimos separar nossa imagem dele. Num certo sentido, de todo homem posso dizer que ele sabe mais de mim que eu mesmo: mas isso, para ele, não é uma vantagem. Pois é necessário saber exatamente o que se é para ser inteiramente quem se é.”[13]
           
      A história da filosofia já nos mostrou isso, mais especificamente com Górgias. É natural que conheçamos mais os outros que a nós mesmos, estamos ocupados demais na construção da personalidade. Neste processo de construção o homem pode facilmente perder-se. Na tentativa de encontrar-se, de fazer-se, acaba se afastando de si mesmo e perdendo-se naquilo que os outros dizem dele. Por conseguinte, esta não seria uma possível aproximação da teoria de Lavelle à teoria de Sartre? Não seria esta a razão de tanta vaidade e fingimento e abandono da busca da construção da identidade?
Não se pode descartar a teoria de que todo homem tende para o bem, seja qual for o grau em que ele esteja. Aristóteles já assinalara isso em sua obra Ética a Nicômaco, que o homem tem como finalidade principal de suas ações o bem em si mesmo; assim como os bens ulteriores. Relata:

“Se há, então, para as ações que praticamos alguma finalidade que desejamos por si mesmas, sendo muito mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que nosso desejo seria vazio e vão), evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens.”[14]

Neste espaço de tempo, todos caminham rumo à felicidade. Nesta busca, por inúmeras razões o ser humano chega a perder-se em meio às coisas, em meio às pessoas e situações. O que torna o homem um ser fechado em si mesmo, em suas verdades e em seu mundo, por inúmeras vezes, é o que chamamos de egoísmo. Quando o homem se esconde por entre as máscaras que o sustentam, o egoísmo faz dele um ser sem vitalidade alguma. O egoísmo destrói toda e qualquer tentativa de relacionamento, pois ele tem em sua raiz e base o uso dos que estão ao redor para satisfazer os desejos. Para que o que se quer seja conseguido, não existe limites para artimanhas e negociações sem ética alguma. Lavelle assinala:

“...mas o egoísmo produz uma cegueira que, no momento em que descubro em mim um ser que sente, que pensa e age, só deixa aparecer nos outros objetos que devo descrever ou instrumentos que posso utilizar.”[15]
           
           O ser humano que não se conhece e não se propõe a estabelecer esse processo, este caminho, continuará neste ínterim onde o egoísmo é senhor de tudo e de todos. Somente a capacidade de acolhimento do outro é que fará com que o ser humano retorne ao diálogo consigo mesmo, pois “é a capacidade de acolhimento em mim que faz que os outros me acolham, e eles só me repelem se no fundo de mim mesmo já os repeli” (LAVELLE, 2012). Parte sempre de mim a decisão. Sou eu quem decido em ir ou ficar, fazer ou não, estabelecer ou não o caminho de construção de mim mesmo ou permanência do uso das máscaras para satisfazer as fragilidades que não foram trabalhadas em mim.
2.3. ENGANOS DE SI E AÇÃO DA PRESENÇA
          Lançamos agora a nossa atenção para a capacidade do homem de enganar, fingir, articular e até mesmo providenciar determinados mecanismos que fundamentem toda a sua obra imaginaria, ilusória, e inexistente da aparência. Preocupar-nos-emos agora do papel do engano, capaz de alastrar de forma determinante até mesmo quem ousou lhe convidar para a própria vida. Simplificando... Refletiremos sobre a capacidade do homem de enganar e perder-se ele mesmo naquilo que construiu para enganar. Trata-se do engano de si. Vejamos!
          Lavelle continua na linha constitutiva do homem, levando seus leitores ao conhecimento de sua intenção: levar o homem ao processo de construção de si mesmo. Acerca da capacidade do homem de construir dilemas que posteriormente ele mesmo se perde em suas próprias criações, o que conhecemos como enganos ou egoísmo, o autor apresenta a sinceridade. Adverte:

“É o homem que mais tem espírito que mais facilmente se arrisca a ser o ator de si mesmo. Ele nunca se contenta com o que encontra dentro de si. Não cessa de alterá-lo, repensando-o. Seu ser verdadeiro está sempre aquém ou além do seu ser presente; nunca consegue distinguir1o que imagina do que sente. Encontra dentro de milhares de personagens.”[16]

Quando nos tornamos menos desconhecidos para nós mesmos, as coisas passam a acontecer no sentido inverso daquilo que estamos acostumados. A ordem passa a ser inversa, de dentro para fora. O homem que inicia o processo de construção de si, descobre essa infinidade de possibilidades que estão ao redor dele. Por meio do conhecimento o homem se torna eterno, divinizado; é colocado no centro com aquilo que o ultrapassa e, ao sair do centro de si mesmo, é enriquecido com os que o rodeiam.
Não se pode querer permanecer no engano. A vida seria apenas uma sucessão de fatos entrelaçados e esperados, capaz do desespero quando algo saísse da rota planejada. É preciso correr, ir velozmente ao encontro do poder que a presença tem e estabelecer com ela um pacto de continuidade. O engano pode até ser capaz de envolver uma vida inteira, ser capaz de entrelaçar todas as ações num bonito feito para ser bem quisto aos outros. Porém, não será mais que uma passagem sem sentido algum pela bonita rota da vida. é preciso que o homem ultrapasse a barreira do engano (por mais difícil que isso o seja; até porque o homem só engana aos outros porque está totalmente engano por seu amor próprio) e chegar aos estados mais conscientes, ao último espaço do ser, a consciência da identidade de si.



[1] LAVELLE, Louis. O Erro de Narciso. Tradução Paulo Neves. Realizações Editora. Coleção Filosofia Atual. São Paulo: 2012.  P. 12.
[2] Idem, p. 46.

[3] Idem, p. 12.
[4] Idem, p. 12.
[5] Idem, p. 45.
[6] Idem, p. 67-68.
[7] Idem, p. 69.
[8] Idem, p. 70.
[9] BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. P. 35.

[10] ARTAUD, Gérard. Conhecer-se a si mesmo: a crise de identidade do adulto. Tradução de Joaquim Pereira Neto. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. P. 46-47.
[11] POWLL, John; BRADY, Loretta Brady. Arrancar máscaras! Abandonar papéis! Tradução de Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Edições Loyola, 1989. P. 33.
[12] LAVELLE, Louis. O Erro de Narciso. Tradução Paulo Neves. Realizações Editora. Coleção Filosofia Atual. São Paulo: 2012.  P. 51.

[13] Idem, p. 58.
[14] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 2. ed. Editora Universidade de Brasília. 1985. P. 17.

[15] LAVELLE, Louis. O Erro de Narciso. Tradução Paulo Neves. Realizações Editora. Coleção Filosofia Atual. São Paulo: 2012.  P. 59.  

[16] Idem, p. 65-66.

O EXISTENCIALISMO SARTREANO E A QUESTÃO DO NADA COMO PRINCÍPIO CONSTITUINTE DA PESSOA



 Ednaldo de Oliveira Santos
1.1.  O PRINCÍPIO HISTÓRICO DO CONCEITO DO NADA
Nada. Eis o que declara e vive o homem contemporâneo. Esta afirmação passa a ser impactante no primeiro momento, mas logo depois é desvelado seu teor de espanto, chegando à realidade que nela está contida. O homem percorre, vagarosamente, o caminho da afirmação, da busca da autoafirmação, da realização. Neste percurso se depara com o nada. É o abismo da negação que parece sugar todas as possibilidades de existência de algo além do manifestado, conhecido. O nada permanece e se estabelece como afirmação negativa.
O homem sempre foi o peregrino do conhecimento, incansável corrente de quereres na tentativa de abarcar as coisas, dominar determinado saber e com isso, os que o rodeiam. No esforço pela apreensão do conhecimento o homem se depara com o nada, com a inexistência frente à totalidade daquilo que existe, o Ser.
A ideia de nada já está presente na história da filosofia antiga. Em Parmênides, fundamentada em dois elementos centrais: o nada como não ser e o nada como alteridade ou negação. O nada é absoluto não ser, portanto não é pensável nem expressável. “O nada não é, porque, se existisse, seria ao mesmo tempo não ser e ser: não ser enquanto pensado como tal, ser enquanto seria não ser.”[1] Górgias apoiava a tese de Parmênides ao afirmar que o nada definido por essas proposições é o nada absoluto, certa ideia negativa do nada, daquilo que está infinitamente longe de qualquer tipo de perfeição. Temos a partir daqui alegorias que fundamentam a ideia do nada e de seu papel “nadificante”.
Em Descartes, opondo-se a Deus, o “conceito vazio sem objeto”[2] que é a negação do mais alto conceito de que se costuma partir das filosofias transcendentais, do que Kant tratara em sua obra, Critica da Razão Pura[3]. O nada foi utilizado para introduzir no ser uma condição ou um elemento que explicasse certos caracteres dele.
O conceito de nada também foi utilizado na teologia para definir Deus, quando se quis insistir em uma heterogeneidade em relação ao mundo, ou para definir a matéria , quando se quis insistir em sua qualidade, daquilo que não possui uniformidade em relação às coisas. Por outro lado, o nada serviu para introduzir no ser uma condição ou um elemento que explicasse certos caracteres dele. Deus aparece então como nada porque é acima da substância. Scotus Erigena[4] defendia que “o nada é, por outro lado, a negação e a ausência da essência de substância, aliás de todas as coisas que foram criadas na natureza.”[5]
Ainda na história antiga da filosofia, os neoplatônicos inauguram o segundo conceito de nada com o objetivo de acentuar a diferença entre matéria e as coisas, entre o caráter sem forma determinada de um a e as determinações de outra. Defende Plotino que a matéria é o próprio não ser, pois é desprovida de corporeidade, alma, inteligência, vida. Ao contrário do ser que contem em sua essência forma, razão, limite e potencia.  

“É preciso dizer que ela é não ser, mas não no sentido em que o movimento não é repouso ou ao contrário, mas que é realmente não ser, imagem ou fantasma da massa corpórea e aspiração à existência.”[6]

Agostinho de Hipona caracteriza a matéria dessa mesma forma ao relatar em seu livro Confissões: “Se se pudesse dizer que o nada é e não é alguma coisa, diria que isso é matéria.”[7] Acaso não seria esse o fundamento do mundo contemporâneo, uma vida fundamentada totalmente na matéria, naquilo que subitamente se esvai, tornando a existência um caminho no mínimo líquido? Continuemos a pensar a cerca do nada que fenece.
O terceiro conceito de nada na historia da filosofia é encontrado já entre os modernos e visa resolver o ser no devir ou a possibilidade em impossibilidade. Hegel já assinalara isto ao afirmar:

“Do ser e do nada cumpre dizer que em nenhum lugar, nem no céu nem na terra, existe alguma coisa que não contenha em si tanto o ser quanto o nada. Sem dúvida, quando se fala de certo algo e de algo de real, essas determinações não se encontram mais em sua completa verdade, em que estão como ser e como nada; mas encontram-se numa determinação e são entendidas, por exemplo, como positivo e negativo. Mas o positivo contém o ser e o negativo contém o nada como base. Assim, mesmo em Deus a qualidade (atividade,criação, potência, etc.) contém essencialmente a determinação do negativo; essas qualidades consistem na produção de um outro.”[8]

Na filosofia contemporânea encontramos Bergson como principal ilustrador do conceito de nada como absoluto.  Com isso, o diplomata e filósofo francês fundamenta que não há nada quando não há a coisa que esperávamos encontrar ou que poderia haver, e que a ideia do absoluto é uma pseudo-ideia, tão absurda quanto a de um circulo quadrado. Ressalta:
“A ideia de abolição de nada parcial forma-se durante a substituição de uma coisa por outra, a partir do momento em que tal substituição é pensada por um espírito que preferiria manter a coisa antiga no lugar da nova ou que pelo menos concebe essa preferência como possível. Do lado subjetivo, implica uma preferência: do lado objetivo, uma substituição; não passa de uma complicação, ou antes, de uma preferência e essa ideia de substituição.”[9]

O aspecto do nada em Bergson, assim como na maioria dos filósofos contemporâneos, pode-se insistir um pouco menos no aspecto subjetivo de nesse conceito de nada e mais no aspecto objetivo. Pode-se dizer ainda que o nada exprime negação ou a ausência de uma possibilidade determinada, ou de um grupo de possibilidades, sem recorrer aos conceitos de preferência ou substituição citados acima. Mas a análise de Bergson está correta, tanto em sua visão positiva, quanto na negativa.

1.2.          ACERCA DA CONCEPÇÃO ANALÓGICA DO NADA EM SARTRE
Sartre inicia seu tratado a cerca do ser e do nada discorrendo sobre o progresso frequente de se reduzir a questão da existência ao aparecer, ao manifesto, ao fenômeno. O perigo de tal redução é a caída em um monismo, impossibilitando toda e qualquer corrente de pensamento ou reflexão. A ideia de ser e aparecer não encontra espaço na filosofia, pois a aparência vai sempre se tratar de uma série de aparecer, segundo Sartre. O pensador é intransigente no que se refere ao nada. Não existe natureza, não existe nada interior ao objeto estudado, observado:
“Não há mais um exterior do existente, se por isso entendemos uma pele superficial que dissimulasse ao olhar a verdadeira natureza do objeto. Também não existe, por sua vez, essa verdadeira natureza, caso deva ser a realidade secreta da coisa, que podemos pressentir ou supor mas jamais alcançar, por ser interior ao objeto considerado.”[10]
A aparência não passa de aparência, não existe nada que a legitime, ela não é o ser. Em Sartre, a questão do nada é pensada inicialmente com a ideia de fenômeno. O ser vai ser sempre aquilo que aparece, que se manifesta, mesmo que não o possamos abarcá-lo completamente, como já mostrou toda a história da metafísica. O dado diferente neste pensamento de Sartre é a possibilidade de estudar o ser por meio do fenômeno, pois o fenômeno pode ser estudado. O fenômeno é percebido, é mostrado, manifesto, localizado. Ele é indicativo de si mesmo. Na busca pelo ser nos deparamos com o fenômeno, com este manifesto e, consequentemente, com o dado da negação, com o nada.
O mundo contemporâneo, embevecido pelo jogo massificador do aparecer, se perde constantemente na busca desenfreada pelo comprar e pelo ter. Aqui se fundamenta a linha de pensamento defendida por Lavelle com relação ao narcisismo e que em Sartre é possível percebê-la na tentativa do homem de relacionar-se com o ser e deparar-se com o nada. Nesta realidade, o homem permanece no nada. Sartre ressalta:
“Partimos em busca do ser e parecia que tínhamos sido levados a seu núcleo pela série de nossas indagações. Eis que uma olhada na própria interrogação, quando supúnhamos alcançar nossa meta, nos revela de repente estarmos rodeados de nada.”[11]
O homem é peregrino, sempre em busca, movimento constante. Mas, ao buscar e ao querer se depara com a imensidão que é o nada, o absurdo, a negação perene estendida sob tudo. Dai não sai. Ai permanece, vida enraizada na dúvida, na angústia (E aqui é possível enxergar outra angústia, fora o conceito sartreano). Na tentativa de encontrar-se, perde-se.
Sartre compreende, assim como a maioria dos pensadores fenomenológicos ou metafísicos, que o ser está presente em tudo, abarca tudo, que tudo compreende o ser. Todavia, abrange em sua obra a concepção totalizante do nada, que este também está presente em tudo. Essa polêmica já estava presente em Hegel ao falar do ser puro e da imediação vazia que mais tarde se tornaria na Fenomenologia do Espírito, apresentando a verdade como o imediato. Sartre defende, fundamentado em Hegel, que é a indeterminação que precede toda determinação, o indeterminado como ponto de partida absoluto. Este ser absoluto se transformará, na concepção hegeliana, em nada absoluto. Sartre se utiliza desse pensamento para tratar da abrangência do nada. O nada presente em tudo, assim como o ser.

“Com efeito, não é o nada simples identidade consigo mesmo, completo vazio, ausência de determinações e conteúdos? O ser puro e o nada puro são, portanto, a mesma coisa. Ou melhor, são diferentes, para dizer a verdade. Mas, como aqui a diferença ainda não está determinada, pois ser e não ser constituem o momento imediato, essa diferença, tal como neles se acha, não poderia ser mencionada: é apenas um simples modo de pensar. Isso significa concretamente que não há nada no céu e na terra que não contenha em si o ser e o nada.”[12]

Estando o nada presente em tudo, o ser é pura indeterminação e vazio, tendo em vista que nele nada se pode apreender. Quando determinamos alguma coisa, trancamo-la á determinado conceito, não permitindo que tal coisa seja nada mais que aquilo que determinamos, pois falar do nada, considerá-lo, significa determinar. Quando determinamos excluímos todas as outras possibilidades existentes, decretamos a existência e o império do nada. Na sociedade atual, o nada invadiu o ser, tomou-lhe o lugar e a importância. Inversão de papéis.
Não é tão difícil deparar-se com esta realidade. Na busca do homem pela consciência de si, ele permanece no império do nada, no império da imagem de si mesmo. Contenta-se com tão pouco, faz tanto e se satisfaz tão pouco. Ei-lo, o nada e seu reinado; a insuficiência da procura desenfreada de sentidos nas coisas, no fazer, no nada. A estrutura humana que transcende o mundo é o nada. A nadificação no mundo contemporâneo é o elemento que fundamenta a busca por pouco, tão pouco, muito pouco, o próprio nada.

1.3.         SER E FAZER: A LIBERDADE COMO CONDIÇÃO PRIMORDIAL DO SER NA BUSCA DA IDENTIDADE DE SI
Na obra O existencialismo é um humanismo (1987) Sartre explana o existencialismo e se defende das críticas acirradas que surgiam contra sua tese. Afirmando que a existência precede a essência, o autor acredita que não há uma receita para fazer um ser humano, que Deus não é um artífice superior que antes de criar o homem já tinha seu rascunho em mente. Ou seja, é preciso partir da subjetividade. Ressalta Sartre: “O homem surge no mundo e, ‘de início’, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo” (SARTRE, 1987).   
O homem é senhor de si mesmo, nele mesmo, segundo Sartre, está o germe de suas potencialidades. O homem nasce livre, a liberdade o abarca, pois é dela que ele é feito. A essência do homem é a liberdade. Dirá o autor:

“Assim, a liberdade não é um ser; é o ser do homem, ou seja, seria absurdo procurar nele depois momentos ou regiões psíquicas em que fosse livre: daria no mesmo buscar o vazio em um recipiente que previamente preenchemos até a borda. O homem não poderia ser ora livre, a escravo: é inteiramente e sempre livre, ou não o é.”[13]

Torna-se cada vez mais complicado pensar a cerca do tema da liberdade. Nos dias atuais, refletir o homem como sujeito de suas próprias escolhas é cada vez mais desafiador diante de um ciclo de sistemas que tentam cada vez mais esmagar aquele que se apresenta mais fraco ou menos convicto. A partir desta constatação, alguns questionamentos baseados no pensamento sartriano são possíveis de serem feitos: É possível ser livres sem limites? O jovem que nasceu em um ambiente de confusões, num contexto de drogadição onde a prostituição se transformou no meio de subsistência da mãe e das irmãs, onde o tráfico de drogas foi a profissão do pai até que ele entrasse no presídio... Quais são as oportunidades que este ser humano tem para enraizar sua existência, no auge de suas decisões, no apogeu de seus dias?
Este é o rosto de vários jovens na modernidade líquida[14], em que estamos inseridos. Como um ser humano que nasce nesse contexto pode ousar ser livre? Quais são as condições oferecidas a ele para que escolha o destino de suas ações, de seus dias? É possível mesmo ser livre, ser protagonista, ou seja, ser senhor de sua vida e de seus dias? Ou o ser humano está condicionado ás condições em que ele está inserido? É possível ser livre sem determinações prévias que estabeleçam alguns pressupostos para a sobrevivência?
É possível ser livre diante de uma estrutura/instituição onde as regras são determinadas por um grupo superior e sem nenhuma espécie de consideração sobre os súditos que são obrigados a executá-las? Como ser livre diante dessa situação, onde a necessidade de fazer parte dessa estrutura torna o homem como que mero realizador de normas e seus posicionamentos são desconsiderados? Vale a pena permanecer na instituição e seguir a risca todas as suas normas, transformando-se numa máquina sem nenhuma espécie de desejo ou seria mais humano ir contra essas condições impostas e ousar querer permanecer na instituição tentando fazer-se ouvir?
Quando Sartre afirma um existencialismo anterior á cultura humanista, ele põe em choque um conjunto de certezas que se enraizavam todas em Deus, aquele autor de tudo e de todos, soberano, responsável pela vida e movimento do homem. Tudo estava seguro quando se tinha Deus como fundamento, agora, se Deus não existe, em quem fica a segurança e todo fundamento? No homem. Deus na obra de Sartre é inexistente, e se ousar existir, é inutilizável. No existencialismo sartririano, o homem tem possibilidades de ser senhor de si mesmo. A vida humana passa a ser ditada e determinada pelas escolhas do homem, que é responsável pelas consequências de tais escolhas. Nem mesmo Deus pode tirar do homem a sua capacidade absoluta. A preocupação central de Sartre não é discutir se Deus existe ou não, mas colocar o homem como responsável por seus atos. Ressalta:
“O homem existe antes de tudo, ou seja, que homem é, antes de tudo aquilo que projeta vir a ser e aquilo que tem consciência de projetar vir a ser. O homem é, inicialmente, um projeto que se vive enquanto sujeito, e não como um musgo, um fungo ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a esse projeto; nada existe de inteligível sob o céu e o homem será, antes de mais nada, o que ele projetar ser.”[15]

Se o homem não se coloca como um projeto infinito, permanente, que se joga para o futuro, ele não conseguirá se entender como um ser existente e consciente de si mesmo. Cabe ao homem construir a sua própria essência, e aqui reside a liberdade do homem, no ato de escolher o seu próprio ser no mundo. Partindo do pressuposto de que o homem não é responsável só por ele mesmo, mas também pelos outros, Sartre afirma na mesma obra: "o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos"[16].O que o homem se transforma será imagem moldada não só para ele, mas para todos os homens, tornando-se responsável por toda a humanidade.

1.4.         ESCOLHAS E CONSEQUÊNCIAS COMO PRINCÍPIOS PÓS-NARCISISTAS
O homem livre, fundamentado e defendido tanto por Sartre, agora se depara com a responsabilidade das escolhas que faz. Constituir-se como pessoa significa fazer suas próprias escolhas, estabelecendo assim mecanismos que favoreçam o caminho ao cumprimento das responsabilidades, com relação às consequências das escolhas feitas.
No homem repousa a responsabilidade por tudo aquilo que ele faz, que ele escolhe. E nesse processo, ele se constitui. Dirá Sartre:

“A primeira decorrência do existencialismo é colocar o homem em posse daquilo que ele é, fazer repousar sobre ele a responsabilidade por sua existência.”[17]

Quando o homem, senhor de si mesmo, é responsável por si e por aquilo que estabelece, por suas ações, ai reside o homem que conseguiu atravessas as portas do amor próprio e chegou ao caminho da identidade de si. Mesmo estando inserido constantemente no império do nada, é possível que o homem atravesse o patamar da nadificação e chegue, por meio do jogo das escolhas e consequências, ao estado da consciência daquilo que ele é.
As escolhas feitas pelo homem são carregadas da responsabilidade com toda a humanidade. Afinal, o que escolho interfere na escolha que o outro, posteriormente ou anteriormente fez. Assim defende Sartre:

“E quando dizemos que o homem faz a escolha por si mesmo, entendemos que cada um de nós faz essa escolha, mas, com isso, queremos dizer que, ao escolher por si, cada homem escolhe por todos os homens.”[18] 
Não há como fugir. O homem ou faz da vida um constante evoluir, ir além, ou permanecerá enraizado no nada, naquilo que outrora foi determinado, e nem sempre determinado por ele. O homem contemporâneo ou será livre ou será louco. Uma possível saída para o homem que se encontra diante de tantos questionamentos com relação a suas ações nesta modernidade líquida, em que tudo é passageiro, é que ele saiba conviver com as consequências de suas escolhas, tornando-se cada vez mais responsável por essas escolhas. Um cidadão que se encontra em um equilíbrio constante entre aquilo que ele escolhe e aquilo que ele é; entre aquilo que ele deseja ser e aquilo que ele vai se auto constituindo. Isso se dará a partir do momento em que o homem ultrapassa a tirania do amor próprio e chega à consciência de si.





[1] Fr. 3, 2, 6.
[2] Meditações, IV.
[3]KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.
[4]João Escoto Erígena (em latim: Johannes Scotus Eriugena; Irlanda, 810 — Paris, 877), também conhecido como Escoto de Erigena, foi um Filósofo, teólogo e tradutor irlandês da corte de Carlos, o Calvo. Expoente máximo do renascimento carolíngio, no século IX, Erígena concentrou seus estudos nas relações entre a filosofia grega e os princípios do cristianismo.
[5] (De divis. Nat; III, 19-21).
[6] (Hun; III, 6, 7).
[7] AGOSTINHO, Bispo de Hipona. Confissões. São Paulo: Editora Vozes, 2009. Livro XII, 6, 2.
[8] (Ciência da Lógica, I, Cap. 1, C, nota 1, cf. Ene, 87).
[9]BERGSON, Henri. A Evolução Criadora. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. 8ª ed. São Paulo: Unesp, 2009. P 305-306.

[10]SARTRE, Jean Paul. 1905-1980. O Ser e o Nada- Ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 20ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 15.
[11] Idem, p. 46.
[12] Idem, p. 54.
[13] Idem, p. 545.
[14] BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
[15] SARTRE. Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução de João Batista Kreuch. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 20.
[16] Idem, p. 7.
[17] Idem, p. 20.
[18] Idem, p. 20

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Esperar pela espera que sempre aguarda


A espera é uma das ações mais antigas da história da humanidade. Consciente ou inconscientemente todos já esperaram. Esperar passa pelos estágios mais diversos, desde o esperar alguém (com toda ansiedade que isso traz) ao esperar o andar lento, e por hora improdutivo, em uma fila, por qualquer que seja a necessidade. Pode-se também viver esse processo de espera por consequência de uma promessa feita, ou ainda por um pedido enviado. E como se esquecer da espera que é experimentada pela mãe que, profundamente imersa no contato consigo mesma, ela acaricia a barriga num gesto antecipador do que depois fará em seu bebe carregando-o em seus braços.
Porém, essa mãe contempla uma das formas mais bonitas daquilo que chamamos espera; nela encontramos o exemplo “perfeito” porque, podendo, não antecipa aquilo que já lhe foi dado, aquilo que já é seu por direito, mas pacientemente permanece fiel, pois confia na promessa que lhe foi feita. Quando algo nos pertence, nada faz com que nossos olhos não contemplem ou nossas mãos não toquem. O que é nosso, cedo ou tarde chega até nós.
Quem espera nunca é iludido. A consciência ou confirmação de que todos já esperaram não traz a certeza de que continuarão esperando. A espera é uma escolha. Não se pode pensar escolhas desvinculadas das consequências que elas trarão. Quando isso acontece, o fracasso é logo esperado com tonalidade de certeza. Diante de qualquer situação, todo ser humano precisa estar desvinculado de qualquer situação que o torne refém ou devedor, desprendido de qualquer condição que o force ou interfira em sua ação/escolha. Para que a escolha seja feita bem feita, é preciso que se tenha um panorama geral, afinal; escolher é pegar isso e largar aquilo. Não existe meio termo neste contexto. Nunca se escolhe tudo, somente o Tudo.
As escolhas vão expressando a personalidade do ser humano. A pessoa é aquilo que escolhe. Tanto aquilo que escolher ser, quanto aquilo que escolher ter. Aquilo que está no ambiente em que estou inserido vai influenciar, vai expressar os valores pelos quais eu fundamento e vivo minha existência. Sem nenhuma pretensão de redundância no termo.  Escolher é sempre um processo doloroso nesse sentido, pois passa pelo limiar de renunciar isso e ficar com aquilo, de ser esse e não isso, de ser assim e não daquele outro modo ditado, dito, pedido. Mas, quem escolhe, pressupõe-se que se tenha visão geral, experiência de um conjunto de possibilidades e que neste meio, conscientemente eu declaro querer algo deste todo. Exercer uma escolha é para os corajosos, nem todos tem coragem de escolher porque a escolha pressupõe responsabilidade nas consequências que estas trarão e na maioria das vezes nós queremos que outros escolham em nosso lugar e assuma tais responsabilidades. É sempre mais confortável estar, ou querer permanecer debaixo de algum ditador, ou como chamamos para melhor nos satisfazer, um bem feitor. Esperar é escolher.
Partindo do pressuposto de que esperar é escolher e que ninguém pode ser enganado se viver de esperas, é preciso voltar para aquilo que fundamenta a nossa espera. Quando dizemos que ninguém pode ser enganado se vive a espera, entende-se que essa espera seja fundamentada em algo que tenha sentido. Ninguém consegue permanecer a vida inteira numa ilusão. Nós sempre sabemos identificar aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, aquilo que vale a pena e aquilo que não chegará ou nos levará a lugar algum, aquilo que é ilusão e aquilo que movimenta toda nossa vida.  Todavia, sempre permanecemos, ousamos permanecer na superfície das coisas. Com isso, nem esperamos nem escolhemos. Não nos iludamos em esperar daquilo que nós já sabemos que não sairá nada. Não nos desesperemos com as realidades que nos chegam. Sejamos corajosos e enfrentemos as frustrações que as nossas vontades nos forçam e nós não temos coragem de ir contra nós mesmos.
Esperar é ser criativo, é criar tudo, menos expectativa. A expectativa muito se assemelha a ilusão. A expectativa é enganadora, mesmo quando eu percebo que as coisas não darão certo, mesmo quando eu sei que a pessoa não é capaz, nem precisa cumprir aquilo que eu exijo, eu continuo criando expectativas. Esperar é saber que aquilo que há de vir pode não vir do jeito que eu quero, do jeito que eu penso, do modo que eu gostaria. Quando eu crio expectativas eu quero que as coisas sejam exatamente como quero, se não eu me frustro e não quero mais esperar, nem por nada nem por ninguém. O que eu preciso criar então? A criatividade está para o ser humano como um rito de passagem. Quando criamos alguma coisa, isso é sempre expressão daquilo que acreditamos, quem queremos expressar mas que nem sempre tem nome, por isso criamos, ou inventamos. Criar é sempre iniciar um processo de expressão. Esperar é sempre um processo de fidelidade àquilo que acreditamos que virá, e acreditamos porque sentimos.
Aquele que consegue chegar à maturidade da espera consegue entender a razão de estar esperando. Neste momento o que eu realmente espero é que você consiga fazer o que eu, pessoalmente considero a ação fundamental que todo ser humano precisaria aprender a fazer: esperar por si mesmo. Que você consiga esperar por você mesmo.

Eu espero que você não fuja de você;
Eu espero que você não se envergonhe daquilo que você é, se tornou ou está se tornando;
Eu espero que você consiga encontrar o ritmo que bate a corda do seu coração e acompanhe os seus sonhos esquecidos;
Eu espero que você lembre os sonhos que você nem lembra mais, aqueles que você acabou deixando pelo caminho pelas descrenças que te deram e você acreditou;
Eu espero que você não tenha medo de falar sobre você mesmo;
Eu espero que você não tenha medo de mostrar aos outros que você não está pronto e que continua procurando e se encontrando, vagarosamente;
Eu espero que você se encontre, da mesma forma que eu espero me encontrar;
Eu espero, um dia, te encontrar...

Ednaldo Oliveira, SDB
Lorena/SP, 17 de outubro de 2013.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Medo, insegurança, Fé, fidelidade e convicção

     Quando todas as portas haviam se fechado para o plano de Deus, quando tudo parecia não ir de encontro aquilo que Ele havia previsto aos seus, quando todas as coisas concorriam para que Ele não mais nos colocasse em seus planos, Deus nos surpreende. E onde então Deus fracassou durante toda a história? Se levarmos em consideração, no antigo testamento a história dos reis escolhidos por Ele para Israel, constataremos que aqueles que foram escolhidos, em nada foram fiéis ao que lhes foi confiado. Sendo Deus Onipotente sabia que eles não seriam fiéis, não seriam capazes. Ao todo foram vinte e quatro reis, somente dois (Davi e Salomão) foram dignos do título da fidelidade a Deus. Desses dois, em um somente é possível enxergar tal fidelidade, o outro nem tanto. Esses que foram fieis a Deus (1 Reis 2, 3) e governaram com sabedoria e justiça servindo ao povo (1Reis  12, 7) que pertencia unicamente a Deus (1Reis 3, 8-9).      
É neste mesmo livro dos Reis que dar-se continuidade a história da sucessão, interrompida em 2 Sm 20, 22 com a velhice de Davi. Mesmo sabendo da infidelidade presente em cada um deles, Deus mesmo se faz fidelidade, Deus mesmo é fiel e os confia a condução do seu povo. Este é o fracasso de Deus, um Deus que por hora seria O Onipotente, se curva diante das infidelidades dos seus e quer continuar com eles. O fracasso de Deus é o fracasso de amor pelos seus. Ele é extremamente apaixonado pelos seus. É o fracasso de qualquer ideia de poder, é o fracasso de qualquer princípio de tirania ou ditadura que por hora pudesse surgir, tudo é substituído pelo Amor. Deus quer ser pequeno, Deus quer precisar dos homens.
Ao longo da história da salvação Deus quis sempre precisar dos homens em seu projeto. As mulheres entram em cena logo no primeiro livro. Eva se torna símbolo do pecado, da desobediência e da ambição. Depois dela, Sara. Uma mulher de personalidade vigorosa, longe de ser um mero objeto, sem capacidade de raciocínio ou vontade própria. Pelo contrário, podemos deduzir pelos relatos, que foi uma mulher hábil e decidida. Débora já ocupa um lugar de destaque nas Escrituras. Foi uma profetisa, casada e juíza em Israel (Jz 4, 4-10).
Chegamos á Virgem Maria, a crente! Logo que Maria aparece nas Escrituras já nos causa uma inquietude muito grande. E se aquela virgem não aceitasse o pedido? E se ela se deixasse vencer pelo medo de ser apedrejada? E se dissesse não ao anjo? A jovem de Nazaré é diferente das outras personalidades que aparecem nas Escrituras, ela traz consigo um dado novo, um dado que muda toda a história, a fidelidade (Jo 1, 26-28). Desta fidelidade não se tem dúvida. Não se tem dúvida dos riscos que corria aquela menina ao engravidar na região da Judeia, não se tem dúvida de sua entrega e de seu desprendimento.
Diferentemente das outras mulheres, Maria permanece fiel, mesmo desconhecendo, mesmo não entendendo, mesmo não enxergando por hora o que seria de sua vida, de seus projetos, de seu casamento prometido. A mãe Deus passa pela solidão do medo, mas não da incerteza. Desde o início ela sabia para onde estava indo, pois sabia Quem a estava conduzindo. O silêncio que tão facilmente percebemos nela pode ser traduzido neste medo, nesta angústia do que poderia acontecer com ela. Mas, segue silenciosa, como que com os olhos vendados. É o auge da fidelidade! É o topo da entrega, é o ponto mais alto de toda a história da salvação, é a criatura que mais se abandonou nas mãos do Altíssimo. É Deus sendo gerando em ventre humano. É a encarnação acontecendo.
Atravessando todas as possíveis profecias de dor e sofrimento (Lc 2, 36), a Virgem aparece ao lado da cruz de pé (Jo 19, 25). Não de qualquer forma, não desesperada, não aos gritos ou lamentando. Talvez por dentro estivesse fazendo tudo aquilo, estaria passando por todas aquelas perguntas e desmoronando interiormente. Aqui é interessante observar a luta interior desta mulher. Uma vida inteira de questionamentos, perguntas, mas de certezas Naquele que a havia escolhido, de alegria pela escolha de Deus em sua história (Lc 1, 46).
            Como nos falta este silêncio! Como nos falta esta confiança inabalável naquilo que Deus tem para nós, naquilo que poderia tornar-se uma grande obra, assim como na vida dessa Virgem. O desespero chega logo e bate a nossa porta, nos visita e toma o lugar de Deus, nós nos entregamos facilmente ao medo e não conseguimos chegar até Deus. Em Maria se vê a realização dos desejos de Deus, dela vem Jesus, o Cristo esperado de todos os tempos. Soube ela “desaparecer” em sua contemplação e dar lugar ao menino que crescia e se desenvolvia (Lc 2, 52). Fora ela a primeira a adorar o menino Deus, ensinar-lhes os primeiros passos e conduzir seus primeiros destinos, Aquele que era já ali naquele engatinhar, e é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6).
            Que Maria não nos seja distante. Que ela seja sempre aquela que caminha conosco. Oxalá eu pudesse um dia encontra-me com esta mãe... lhe segredaria tanta coisa, lhe perguntaria tanta coisa, sentado ao seu colo, lhe confidenciaria os grandes medos de minha vida e diria ali pertinho o quanto lhe admiro tanto por sua coragem, convicção e fidelidade. Que nos venha o silêncio de Maria, que nos venha sua capacidade de calar-se e confiar, que nos venha sua determinação no abandono, que nos venha sua capacidade de, mesmo diante do medo e da insegurança, chegue até nós a certeza de que é Deus mesmo que nos quer junto, é Deus mesmo quem nos coloca no patamar de escolhidos, mesmo sem que nós mereçamos. Deus não trabalha com merecimentos, Deus trabalha com dignidade humana, presente em todos os que Ele criou.
“Nos momentos mais difíceis, quando nada mais nos parece ser favorável, quando até mesmo o Pai parece nos estar castigando/educando, recorramos á Maria, peçamos-lhe o colo: ‘mãezinha, ponha-me ai do lado deste menino que tão carinhosamente balanças’...”.
            A Virgem que acreditou desde o anúncio do anjo, mudando a história da participação humana no projeto divino, segue o caminho da fidelidade. Agora no auxilio aos filhos, na condução ao Pai.

Ednaldo Oliveira, SDB


Lorena/SP, 24 de maio de 2013.