quinta-feira, 30 de agosto de 2012


“Quando os amigos se vão o peito apertado reclama do frio gerado, alma se esconde em suas profundezas mais escuras e inicia seu processo doloroso de retorno; viaja pelos vales sombrios e desesperadores, reencontra seus feitos mais vergonhosos, se depara com tantos desencontros que provocou e se vê diante da grande confidente que sempre enganou, negou; a eterna presença que nunca a abandonou, a confidente primitiva, a SOLIDÃO...”
(Ednaldo Oliveira)

“Às vezes eu penso já ter escrito tudo, sinto-me esgotado as palavras; mas elas são tão precisas que, mesmo já tendo dito tudo, acabo reinventando o que disse e gerando sensações contagiantes ao ponto de parecerem nunca ter sido sentidas ou expressas...”
(Ednaldo Oliveira)


“A gente sempre pensa que os melhores amigos não vão embora, que eles sempre vão estar por perto e nós realmente encontramos o confidente da alma; mas a hora deles chega e nós voltamos a ficar sozinhos naquele banco no finalzinho da tarde, quando o sol também se vai...”
(Ednaldo Oliveira)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quando deixamos de ser desconhecidos para nós mesmos



Olhar para frente é questão de convicção e segurança! Quando se tem um porque lutar na vida, as outras coisas vão passando e você vai se tornando telespectador das adversidades. O que nós não podemos permitir é que aconteça o contrário. Isso nunca. Nós não podemos passar pelos problemas, eles devem passar em nós. Chegar, mostrar o que precisa mostrar e depois partir; nada mais que isso.  
A coisa fica complicada quando nós invertemos a situação. Quando não se tem para onde ir, qualquer lugar serve, qualquer coisa ocupa o lugar, qualquer motivo leva a desistência, qualquer fumaça se transforma em chama fumegante e alarmante. É preciso saber para onde se está indo. Não importa se o caminho vai se tornando complicado e sangrento a cada passo, importa mesmo é que você se dê conta do que ainda falta ser percorrido, do que ainda falta ser feito, do que ainda precisa ser superado.
Tornar-se telespectador das adversidades não é para qualquer um.  Existem pessoas que vão se tornando escravas, vão se deixando levar e conduzir pela loucura de alguns, enraizando suas ações nos esconderijos sujos e desordenados, encravando suas fraquezas nas lamentações e desvios dos loucos que nos cercam. É claro, o caminho é bem mais fácil quando você se deixa manipular; você passa a não ser mais responsável pelas caídas e descidas que se dá, você passa a somente receber e, sabe que vai sempre receber (o que quiserem dar). Porém, nesta situação a vida se torna um mar de nojeiras sem destinos, somente esperando que te levem, que te tragam, te façam, que te deem, que te mostrem, que te sejam. A vida é bem mais simples. As coisas são bem mais esperançosas.
Não se deixe reprimir. Não permita que digam o que você deve ou não fazer. Aceite as coisas que lhe oferecem, aquelas que vêm do coração que chega para somar em tua existência. Mas, aquelas que vão se chegando devagar e vão como que tomando o espaço de tua alma, essas você descarta e joga fora. Não permita que te roubem nada, não permita que avancem onde nem mesmo você teve coragem de ir por medo do que encontraria, por não ser ainda o tempo certo, por estar esperando o dia certo de ir, ou até mesmo por respeito a sua intimidade. Não deixe que te transformem em coisa fútil e fácil de ser manipulada. Ninguém sabe o quanto você já caminhou para chegar até onde chegou, isso é fato. Não precisamos de ditadores, precisamos de companheiros, muitas das vezes sem experiência, iguais a nós; aqueles que vem com a gente no mesmo vendaval da situação. Os invasores estão á solta, fuja deles.
Entre dentro de você mesmo e procure por você mesmo. Não existe nada mais desafiador que este percurso. Porque andar por ai nos caminhos dos outros? Porque andar por ai procurando pelos outros? Porque andar por ai tentando ser os outros? Porque andar por ai sem saber nada de você mesmo? Afinal de contas, por onde andar? Por onde você tem andado, por quem você tem esperado? Por onde tem estado? Esperar é preciso, sim! Mas, não esqueças jamais daquele teu sentimento de que podes ser reservatório de espera eterna. Esquece o reservatório e te tornas uma fonte onde as borbulhações constantes se tornem em esperança concreta para as margens de alguém.
 Seja ponte, seja uma fagulha para você mesmo. Uma simples chamazinha, uma simples faísca geradora de impulso sereno para teus anseios. Sinta tudo arder dentro de você e ai verás como as coisas vão aos poucos se tornando bem mais fáceis. Não falamos de coisas motivadoras, bobices que nunca se concretizam. Falamos de vida, vida real e concreta. As coisas mais simples da vida chegam ao momento em que nós nos tornamos simples para nós mesmos, quando nós deixamos de ser pessoas desconhecidas para nós mesmos, quando nós nos entendemos e somos pessoas melhores, quando deixamos de lado nossas vergonhas e não temos medo de dizer quem somos.
Quando deixamos de ser pessoas desconhecidas para nós mesmos, as coisas começam a acontecer dentro de nós e, tudo o que lá fora acontece, não interfere mais dentro em nós. Pelo contrário, a gente passa a rir das adversidades da vida, das loucuras da vida e dos loucos que se acham estar na camada privilegiada que chamamos vida.


Ednaldo Oliveira, SDB
Recife/PE, 30 de julho de 2012. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Além do que se vê



Na verdade eu nem sei ao menos como chegarei ao final daquilo que estou construindo hoje. É complicado, mas, nem mesmo as coisas que eu mesmo faço e, penso estar criando e projetando, eu realmente não sei onde vai dar. A nossa mente vai criando e recriando o que vamos encontrando pelo caminho e vamos, no decorrer da vida, sustentando as coisas que achamos ser verdadeiras. Na verdade ninguém sabe o que são. Nem nós.

E assim vamos percorrendo um caminho sombrio que nos coloca no patamar de um saber que nunca se apresenta, nós nunca o tocamos, ele nunca se torna visível, mas, nós ousamos achar que sabemos. Nós sempre teremos pensamentos de saberes desconhecidos que sempre defenderemos ser nosso. É melhor, em toda essa confusão, sentir ausência. Saberes não existem para serem guardados dentro do travesseiro, também não existem para serem jogados onde não sabemos se será cabível, mesmo se este saber é existente.

Não é preciso saber tanto. Simplesmente quem é. Esta é a questão mais complicada da existência. Mesmo assim, sem saber para onde vamos e quem somos vamos fazendo de conta e fazendo acontecer coisas que vão se tornando verdades. Não se sabe para quem nem muito menos para que, mas, vão se sacralizando e se tornando um perigo constante.

A procura é e será sempre nossa saída mais confiável. Parece contraditório mas não o é. Procurar não significa um período de retrocesso ou paralisação. O procurador é sempre o privilegiado na legião das coisas crentes. Esse sim saberá que não se sabe nada a respeito do saber. Sempre se irá mais longe quando não se conseguir entender nada. Afinal, o nada sempre estará em uma eterna procura por si mesmo e se nós nos tornarmos, ou ao menos nos aproximarmos deste nada, estaremos ao menos no processo de iniciação de procura e, quem sabe, entendimento.

Mesmo assim, é sempre complexo pensar que não nos contentamos com a ideia do nada saber ou ser. Entra em cena uma ideia de frustração futura em que não se será possível fugir. Quem chega a essa ideia sabe do que falamos até agora. Ter e perder, ser e não ser, estar e não ser, parecer e não se contentar, ficar e não permanecer, esperar e não finalizar.



Ednaldo Oliveira, SDB
Jaboatão Guararapes/PE, 10 de julho de 2012.

domingo, 10 de junho de 2012

Enquanto eu amava, a solidão me espionava


O vazio é coisa horrível, porém real e constante. A vida vai passando e a gente vai esquecendo-se de tantas coisas e lugares, a gente vai deixando de ir em tantos lugares, vai deixando de encontrar e reencontrar tantos amigos deixados em tantas esquinas deslizantes e anexas.
            O pior em tudo isso é quando o objeto do esquecimento somos nós mesmos. Quando todos aqueles que nós mais precisaríamos naquele instante, naquela hora, naquele auguro, simplesmente não te quer por perto. A sensação é nojenta. Nós nos tornamos, para nós mesmos, o ser mais desprezível que se possa existir. O pior é que as pessoas tem sim o poder de fazer isso com a gente.
          Quando nos mais aleijaríamos estar agarradinhos, nem que fosse somente a um olhar, somos pelo contrário amassados pela amargura real da vida solitária, nos descobrimos, ou passamos a nos portar como tal, o ser sem razão ou sem emoção nenhuma. A vida só não vale a pena. Mas, o mais triste é quando a gente não fez opção por isso. Quando fizeram a opção por nós é mais doloroso.
            Uma palavra tem um contexto enorme de destruição ou construção constante e elevada. Eu não suporto estar só. Entrar em contato comigo mesmo é necessário, mas, é diferente de se sentir desolado.  É como se estivéssemos em um profundo abismo sem volta, sem luz, sem ver, sem retorno, sem sentido, sem esperança, sem voz, com medo. E, quando em qualquer momento da vida, se é que ela existe, entra em cena o medo, as coisas tornam-se cada vez mais complexas pela gravidade do não poder mais avançar pelo medo de estar, medo de errar, medo do medo.
           As coisas não são tão simples. Não se brinca de ser feliz. Não brinque comigo. Não me imponhas outra coisa, não me peças outro comportamento, não me peças para mudar assim tão repentinamente. Nasci assim mesmo e ainda estou em construção. Nem mesmo eu sei bem onde estou indo nem porque estou indo por aqui. Nos não somos aquilo que queremos. A vida não é aquilo que planejamos. As coisas não são como esperamos.
            Eu só tenho isso para te oferecer, é uma pena! Sim, eu queria poder e saber oferecer mais, porém, eu também não entendo minhas ações. Eu também não sei por que tenho medo de lhe dizer quem sou. Não é porque não quero que não lhe digo ou não lhe mostro, é porque não sei mesmo. Não sei. Talvez meu maior medo seja o medo do medo de me encontrar. Não me fales do que eu deveria ser, aceita meu mau cheiro insuportável se queres vim comigo pelo caminho mas, por favor, não me faças caminhar ao teu lado pensando e apostando em alguém que, tão longamente me deixará, sozinho.
            Mas, que eu saiba me enfrentar. Que eu saiba ficar sozinho com a fera que existe em mim e que eu aprenda a ficar com o nada que a vida ousa me oferecer. Afinal, cheguei sem nada...

S Ednaldo Oliveira, SDB
Recife/PE, 08 de junho de 2012.

           


terça-feira, 10 de abril de 2012

“Quando ainda estava escuro... (João 20, 1-9)”


          Esta é a nossa vida. O domingo da ressurreição se assemelha a nós em nossos momentos de maiores mazelas e até mesmo nos grandes picos de nossa existência. A vida anda escura demais e nós não enxergamos nada além de nós mesmos e nossas lamurias. Cada um com a sua, cada um com uma maior, cada um com uma mais grave.

            Esta passagem do evangelho é magnífica. Ainda escuro significa que o dia vem vindo, que vem surpresa por ai, que não permaneceremos na escuridão, quem vem vindo um sol bonito para iluminar a todos sem distinção. Mas, nós usamos permanecer na escuridão. Mesmo que venha luz, ainda está escuro. E, quando chega o sol, ninguém o ver. Ninguém o percebe nem o recebe, alegres por seu retorno solidário e real. A escuridão é notória e querida. Porque nós sempre queremos permanecer ali, na lama da vida? Porque nós não queremos sair e ver que vem vindo uma nova oportunidade, uma nova luta, que não finalizamos na poeira, mas que temos uma nova etapa pela frente? Por que razão nossos destroços tem mais significado que nossa própria capacidade de levantar o rosto e ver que o “ainda”, existe?

            A nossa natureza quer sempre permanecer como a daquelas mulheres que, mesmo sendo louvável a ação, vão ao túmulo no justo dia da promessa da ressurreição. Esqueceram! Esqueceram-se do que o Rabi havia dito e programado, predito e anunciado. E o mais intrigante, mesmo vendo, não acreditaram. O “Tiraram o Senhor do túmulo” de Madalena é a típica expressão nossa de desconfiança. Estamos nos tonando pessoas frenéticas que não confiamos nem mesmo mais em nos mesmos. Não é redundância, é realidade. Expressão de desespero e demonstração de olhos vendados, não viu que o Sol chegou, não percebeu que aconteceu o predito.

            João é o célebre da história. Penso que ele toma até, com respeito á expressão, o lugar do Sol. É ele que passa a iluminar. É ele que se torna o Sol, é a primeira testemunha. “Ele Viu e Creu (João 20, 9).” Não é Madalena a testemunha primeira, mas ele, ele que acreditou. Ele foi o primeiro crente e não nos é estranho sendo ele o mais íntimo do Senhor, aquele que O conhecia, que sabia dos seus anseios mais profundos, de seus projetos, de seus medos, suas angustias, seus desesperos. Era ele o mais amado. Foi ele o primeiro a entender, mesmo não tendo recebido o Sol.

            Imaginemos, pois como seria se todos os seguidores do Cristo estivessem ali, bem pertinho do túmulo na hora da ressurreição... Ali naquele momento, “ainda” no escuro. Se estivessem todos á espera da explosão prometida, se eles tivessem acreditado e não se tivessem tornado todos meros covardes, a escuridão não seria tão destruidora, não faria tanto medo, não seriam tão desconfiados. Se nós, nos juntássemos todos para ver o sol nascer. Se nos acalentássemos na madrugada fria e destruidora dos nossos mais fortes torrões cotidianos e esperássemos um novo Sol, nós não precisaríamos sair desesperados para conferir nada, seriamos todos testemunhas credíveis de um novo Sol, de uma nova visão.

            Nossos corações estão mais vazios do que o túmulo. Mesmo sendo grande a diferença. Como desejaria que o meu coração fosse semelhante aquele buraco que recebeu e viu o Rabi ressuscitar e ficou sedento e cheio de saudades do Sol que não mais está ali. Para quem acredita, contempla a luz em cada amanhecer, mesmo se as nuvens forem abundantes. Deixemos-nos guiar pela luz que é Deus, pelo sol que é Deus “e não deixou seu Filho conhecer a corrupção (Salmo 15, 10”), permaneçamos “alegres por causa da esperança (Rm 12, 11-12)” e esperemos ansiosos a chegada do Sol, a chegada do Cristo.

Acreditemos, Ele acabou com a escuridão. Foi morte para a morte. “Caminhemos sob a Luz do nosso Deus (Is 2,5)”.



S Ednaldo Oliveira, SDB.

Recife/PE, 10 de abril de 2012.