Sobre os interesses e o capital hegemônico
Ednaldo
de Oliveira Santos[1]

A
história do Brasil é marcada por inúmeros movimentos e protestos. A rua, palco
de infinitas manifestações, acolhe grupos de uma mesma nação, lutando por
objetivos diferentes e esquecendo que são gente, humanos, senhores da
linguagem. O processo de redemocratização
no Brasil foi marcado por pancadarias. Não muito longe do que se assiste hoje,
os “conservadores” do país se uniram para defender a Ditatura Militar que começava
a declinar com a lei 6.683 da Anistia, de agosto de 1985. Os que eram a favor
dos militares no poder começam a ir às ruas defender a continuidade do governo
da ordem e dos bons costumes, para não dizer “Governo das Armas”. As ruas, que
pertenciam aos que lutaram contra a opressão e a favor do retorno da
democracia, agora era ocupada pelos que incisivamente não queriam que os
militares deixassem o Planalto. Ora, a quem interessava que os homens de farda
permanecessem na vida palaciana da capital federal?
A
história foi sempre neste sentido: uns contra os outros, melhores contra os
piores. A reflexão não alcança o ponto que deveria. A quem interessa isto? A
quem interessa que não nos unamos e nos debatamos? Quais os interesses por trás
da continuidade da polarização direita e esquerda? A reflexão se existe direita
e esquerda no país é bem mais ampla. O que parece estar em jogo mesmo são os
esquemas de dominação de uma elite sobre uma extensa maioria chamada minoria.
Quando o lugar de poder é concedido, democraticamente falando, à elite, existe
algo de errado. É como, quando no Brasil colonial os próprios negros, chamados
de capitão do mato, entregavam seus companheiros em vista de um mínimo
prestígio social. É um fenômeno interessante: é como entregar o queijo cortado
em fatias ao rato faminto. Em nenhuma outra sociedade na história, a elite
ajudou a classe proletária.
No
Governo Federal, a crise política se agrava ainda mais depois das últimas
delações envolvendo o chefe do executivo, Michel Temer. Ora, de onde saiu a
ideia de que alguém que sempre esteve ao lado dos Bancos e do Comércio, ao
chegar ao poder, não favoreceria estas camadas sociais? Onde está enraizada a
ingenuidade dos que acreditam piamente que o atual Presidente da República está
preocupado com o futuro da Previdência, quando este mesmo se aposentou antes
dos 60 e traz propostas escravizadoras, sem tocar no futuro da aposentadoria
dos que o ajudarão a aprovar tais reformas? O que esperar de um país formado
por uma classe trabalhadora que silencia diante de uma das reformas mais
escandalosas, traindo as conquistas dos últimos anos? Ou ainda, onde está a
memória do povo, ao engavetar os longos anos de repressão que foram precisos
para se chegar ao direito de trabalhar? Isto mesmo, lutamos pelo direito de
trabalhar para os outros. Como aceitar que o chefe do executivo, supostamente
envolvido em vários esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro, destruição de
provas, e tudo o que ainda não se sabe, nomeei ministros com o intuito de
livrar a própria cabeça da forca que se aproxima? Como assistir calados aos
inúmeros banquetes para conseguir votos para os projetos apresentados nas duas
Casas?
A
diferença do momento em que vivemos hoje com a época do impeachment de Dilma
Rousseff é a inexpressiva presença do povo na rua. Depois da ridícula presença
do Presidente Temer na Europa, quando foi escrachado em coletiva de impressa
pela primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, o chefe do executivo
brasileiro declara, horas antes de ser denunciado oficialmente pela PGR: “Nada
nos destruirá, nem a mim nem aos nossos ministros.” Sem a presença do povo nas
ruas, todas as decisões são tomadas pela Câmara dos Deputados, com todo o seu
arcabouço moral invejável (risos). Repito o que tenho dito, quanto menos nos
inteiramos dos interesses públicos com o discurso de que estamos cansados da
política, mais os interesses pessoais desses que escolhemos são sobrepostos
sobre os da República. Seja quem for o ocupante do terceiro andar do Palácio do
Planalto, é papel dos brasileiros acompanhar, investigar e cobrar. Ingenuidade
é achar que tudo isso não muda nada em nossa vida.
Quando prédios são demolidos com pessoas
dentro, na maior capital do país, e o que se escuta no ponto de ônibus é algo
do tipo: “É uma pena não ter matado nenhum daqueles drogados”, a conclusão não
pode ser outra: estamos doentes. Quando a mulher que é estuprada é condenada e
culpada nas redes sociais por estar vestindo uma saia curta ou caminhar “onde
não deveria” em determinado horário, estamos atestando o pacto social de
demência geral, e isto é extremamente grave. Requer cuidados generalizados.
Quando o discurso de ódio ocupa as Redes, as praças, o transporte público, a
Academia (que deveria ser por natureza, espaço de reflexão), a razão, sai de
cena, não havendo mais possibilidade alguma de diálogo e debate, argumentação e
construção coletiva. Quando o espaço de poder é concedido às elites, os pobres,
negros, mulheres, LGBT+ e todos os outros que não se encaixam no patamar ditado
pelo Capital são invisíveis, não existem. A indiferença é tamanha que a eles
não é concedido ao menos o direito de serem contados entre os excluídos, estes
simplesmente não existem. O excluído não existe. Não pode existir. É preferível
matar.
O
capitalismo deu certo. Essa conclusão parece ser uma afronta aos infinitos
exemplos que temos para apresentar um país imerso no consumismo escancarado.
Mas, a lição é esta mesmo: deu certo. Ora, hoje, corrijam-me se erro, não
estamos na maioria das vezes tentando tirar proveito de tudo o que nos
acontece, seja no espaço de trabalho que temos, nas relações que estabelecemos,
ou na Igreja (Só a minha salva!) que frequentamos para aliviar um pouco a culpa
infinita que carregamos? Quando com convicção ferrenha eu penso estar fazendo
justiça ao concordar que alguém que foi pego em fraga ao roubar; quando a testa
de um adolescente é tatuada com seu “delito” e eu vibro por dentro, esquecendo
o sinal de TV por assinatura que roubo... deu certo, ou não?
O
único objetivo do capitalismo é acumulação. Com as manobras desastrosas da
especulação financeira, rico continuará sendo rico, e pobre, detentor de sua
única posse: o trabalho. Quando a simples especulação ocupa o espaço da ciência
econômica, a preocupação com o ser humano é substituída pelo lucro. As
consequências são graves. A luxo é mascarado de qualidade de vida e sobrepõe a
dignidade humana, de alguns. Esta é a lógica da especulação financeira. Sem
este movimento que mantém ricos X pobres, o capital hegemônico sobreviveria? A
lógica do capital hegemônico nunca será mudada enquanto os valores das cifras
forem superiores aos éticos. O capital moderno deu ao homem a capacidade de
poder ter. Não interessa se o indivíduo está ou não endividado, o importante é
que ele pense que pode algo. De preferência, que isto o diferenciei dos outros,
colocando-o num patamar elevado. Esta segregação parece ser a alma do negócio.
O
poder é em si mesmo corruptor, embora suas raízes sejam rasas. A questão é
quando o povo tem, com o direito conquistado, o dever de escolher a quem
conceder e o entrega justamente aos seus usurpadores. O fenômeno silenciador da
nação brasileira diante dos fatos da classe escolhida para governar o país é
algo esquisito. Quando por direito constitucional a fiscalização desses
escolhidos é do povo e este abre mão desta tarefa, os interesses particulares
ocupam espaço naquilo que é público. Ricos ou pobres podem ser corrompidos no
sistema político. O que cheira mal é o escravo entregando novamente o chicote
nas mãos do Senhor da Casa Grande, e silenciosamente retornando aos troncos
manchados e marcados da história.
[1]
Licenciado em Filosofia pelo CENTRO UNIVERSITÁRIO SALESIANO DE SÃO PAULO
(UNISAL) | Especialista em Juventude
no Mundo Contemporâneo pela FACULDADE
JESUÍTA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA (FAJE) | Pós-Graduando em Gestão Educacional pela UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJUBÁ (UNIFEI).
E-mail: olinaldoveira@gmail.com .